Magia Cerimonial e alteradores de consciência: viável?

Estou diante do círculo e do cristal. O dia que tudo começou. O dia em que, após meses de estudo, eu iria conjurar o primeiro espírito da vida, em  minha casa. O ser era o arcanjo Sachiel, regente da esfera de Júpiter e da Sephira de Chesed, da Árvore da Vida cabalista. Estava abandonando o posto de “Ocultista de Poltrona”, termo no meio magístico para aquele que só lê livros e acumula conhecimento, mas nunca entrou no círculo mágico para nada. Posto ocupado a muitos e muitos anos. Minha única prática eram oráculos, mas eu tinha uma base relativamente sólida de magia, ao menos acreditava. Penso, então, que preciso fazer e ver como vai ser.

Estou fazendo o rito, mas primeiramente, o que está acontecendo? Deixe-me lhe guiar pela minha vida. Iniciei meus trabalhos espirituais com alteradores de consciência, precisamente a Ayahuasca. E um efeito colateral deste processo foi uma abertura espiritual muito grande, o que normalmente chamariam de “mediunidade”. Sim, a mediunidade me trouxe muita coisa de bom e de ruim. E esse lado ruim lhe força invariavelmente a algum tipo de prática. Caminhei pelas doutrinas espiritualistas, comunguei de suas forças, e me ergui. Através dos meus ancestrais, ergui as pernas, e o chamado começou a ficar grande. Era preciso fazer o ponto riscado no chão, mais precisamente num lamen simples de cartolina. É o selo que identifica qual planeta estamos trabalhando. Na magia, percebi logo que o importante é sua Vontade

O trabalho foi um livro chamado “Seven Spheres”, de Rufus Opus. Aquilo me atiçou a curiosidade, procurei o livro e encontrei, e comecei a ler. A magia cerimonial aparece então em período de necessidade  na minha vida. E isso me faz perceber algo. A magia só flui naquele que precisa dela. Quem  não precisa de magia na vida, que tem uma vida  normal, onde ele dorme tranquilamente sem ser assediado noites a fio por espíritos sofredores e obsessores, irmãos desencarnados que as vezes tem ressentimento de nós… se você não vive isso de forma descontrolada, ou se não tem uma sede de conhecimento, você não vai pra frente muito tempo na magia.

“Magistas são aqueles que não conseguem fazer algo a não ser se atraírem pelo oculto… eles são aqueles que não conseguem explicar a paixão por esta coisa estranha… mas independente disso devem alimentar essa busca insaciável por conhecimento, experiência e ação correta” – Rufus Opus

O rito proposto é uma releitura mais acessível e moderna de um ritual que surgiu meados de 1500, supostamente associado a um abade chamado Johanes Trithemius, matemático e ocultamente um grande magista, que escreveu obras de criptografia na idade média que são estudadas até hoje, mentor de Cornelius Agrippa. O rito é simples e direto, se chamando “A arte de atrair espíritos para cristais”, e usa um cristal como centro ritualístico, onde se faz as conjurações e faz-se scrying no cristal, ou seja olhar fixamente para o cristal, em estado meditativo, e as imagens surgem na sua mente, lhe passando as mensagens dos seres superiores que você conjura.

Realizando os ritos periodicamente, quanto foi aprendido. Mas, como sou inquieto, pensei, porque não fazer uso nestes ritos de uma outra aliada? Santa Mãe Kaya, peço tuas bênçãos. Santa Maria, ou também chamada de Cannabis, mais vulgarmente como Maconha, Beck, e nomes adoráveis como Brenfa e Djamba. Sim, aquilo que a sociedade pensa que cria os usuários de crack, e não percebem que a maior droga que causa problemas é o álcool. Mas, devido a uma idéia americana de 1929, na época da quebra da bolsa de valores, foi proibida. Proibiram a Cannabis não por motivos de saúde, mas por ser associada a árabes e latinos que iam para os Estados Unidos, vistos como um povo atrasado que usava uma droga que tornava as pessoas improdutivas, e essa idéia perdura até hoje. Devido a isso, realizar tal ato é um risco.

Não vejo porque não tentar, e tentei. Se funciona tão bem com Ayahuasca, quem sabe com ela?

A Cannabis aparece em minha vida em um momento decisivo, e começa a me ensinar principalmente a ter mais prazer na vida. Esse o maior desafio da planta, que ensina uma disciplina na verdade árdua, mas extremamente recompensante, para ter um contato harmônico com o elemental. Estrada onde muitos afundam, pois sim, ficar chapado é delicioso, e começa a ser onde muitos fogem e ficam todos os dias na onda da Cannabis. Não julgo. Já estive aí também, precisei do afago da Grande Mãe Kaya, que pega nossa mão, diz pra relaxar, a ver que tem coisas boas acontecendo, lhe incentiva a comer, a rir, a chorar, a aprender que pode ser mais leve, menos duro, menos crítico consigo mesmo.

No rito proposto por Trithemius, após as conjurações, o mago deve ficar alguns instantes em meditação no cristal, para receber as mensagens. Sob a força da Cannabis, o rito ganha profundidade. Ao meditar, a voz dos seres superiores se mistura com a voz interna que a planta cria. Os insights, naturais da Cannabis, ganham contornos tão finos que começa a ficar difícil pensar que sua mente criou aquilo. Você literalmente vê o que o cristal quer lhe mostrar, não somente dentro de sua mente, mas de olhos abertos. Alucinação ou realidade? Não seria a realidade uma grande alucinação coletiva e consensual? Quando você trabalha com enteógenos, essa linha fica extremamente tênue.

Timidamente, comecei a inserir a Cannabis de forma ritualística, e que combinação maravilhosa. Já experimentei alguns enteógenos em ritos, e digo que a Cannabis, para o magista solitário, é de longe a melhor das plantas para magia, justamente por ser naturalmente neutra e tendenciosamente prazerosa. Ela se adapta então a todo tipo de energia (trabalhar com os espíritos de Marte com ela é um evento único), ao passo que não te dá os “trancos” que normalmente outras combinações como Ayahuasca faz. Você simplesmente recebe o que o rito lhe traz em full HD, de uma forma harmoniosa e equilibrada.

Triste é a realidade onde preciso me ocultar como Eremita para realizar tais experimentos, mas o mago sempre trabalha no solo do real, aceitando e fazendo os movimentos necessários. A magia é amoral. Seres divinos não ligam se você está ali sóbrio ou após usar substância X ou Y. Eles ligam para seu coração (quando ligam!).

Trato a Cannabis como um sacramento em minhas práticas, com a mesma deferência que o magista trata os seres que conjura. É uma força, e está nas minhas mãos direcioná-la para que uso queira. E convido vocês a acompanharem os futuros diários de operações, neste canal.

Fiquem com as bênçãos de Jah (que é uma das formas de ler o nome divino de Deus na Sephira de Chokmah).

Música: Santa Kaya, de Ponto de Equilíbrio

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