Normas básicas de etiqueta com alteradores

“Babá de onda”, um termo americano praquele amigo esperto que lhe acompanha na viagem

Então você leu algum texto sobre quimiognose e agora mal pode esperar pra conjurar aquele Daemon esperto da Goécia, tudo isso na onda de várias gramas de algum alterador de consciência. O que pode dar errado? Calma lá, seu drogadinho afoito, senta que o Yod aqui vai te falar um pouco sobre algumas normas básicas de etiqueta para que você possa ter o melhor proveito possível da substância que escolher. Afinal de contas, estamos falando do ato de colocar uma substância que irá alterar todo seu funcionamento, você acha que é algo corriqueiro? Não é mesmo!

A primeira coisa que eu sugiro para todo aquele que decidiu conhecer uma substância na magia é: entenda mais sobre essa substância. Não caia de cabeça na experiência, achando que uma onda de Ayahuasca é parecida com aquela garrafada que sua vizinha benzedeira fazia. Nunca faça isso. É a típica receita para dar errado. Podemos comparar o trabalho com alteradores com uma iniciação. Antes da iniciação, você não faz idéia do que irá acontecer no rito, pois todos os processos iniciáticos costumam ser secretos. Somente depois do rito é que você tem uma noção de como é aquilo. Assim são as substâncias. Cada substância te traz uma gama vivencial de sons, cores e sensações. Cada uma delas afeta regiões corporais específicas (a Ayahuasca por exemplo afeta muito o estômago. Já a Argyreia Nervosa fez minha cabeça parecer que tinha 2 metros). Cada substância tem princípios ativos diferentes, o que significa que seu corpo irá sentir seus efeitos de formas totalmente diferentes.

Isso por si só já é muito importante. Um exemplo básico: a Cannabis causa uma leve alteração nos batimentos cardíacos. Se você tem Síndrome do Pânico, e não sabe disso, o que acha que pode acontecer ao ingerir a erva? Existe uma grande chance de que você ache que está tendo uma crise, e ela realmente acontecer. Quantas bad trips canábicas poderiam ter sido evitadas se as pessoas soubessem disso! Converse com quem entende da substância, busque guias, mas nunca caia de para-quedas em algo do tipo.

Segunda dica importante: tenha um set e um setting adequados. Estes termos, cunhados por Timothy Leary, são muito importantes. “Set” significa você, seu estado de espírito,suas idéias, preceitos e valores. Já o “setting” significa o ambiente e todos os seus detalhes. Resumidamente, podemos dizer que em uma experiência com um alterador, a sua bagagem psicológica e o ambiente que você faz uso contam totalmente pro teor da experiência. Usar Ayahuasca num ritual é totalmente diferente de usar no meio da mata, e é totalmente diferente de usar numa balada, mesmo que seja você a pessoa a experienciar elas (ou seja, o “Set” é o mesmo). Sabendo disso, você acha realmente uma boa idéia dropar aquele LSD maroto enquanto conjura o rei Paimon, horas depois de uma briga avassaladora com sua esposa? Depois ainda vai dizer que a culpa são dos textos postados aqui.

Esse tripé de set, setting e a substância forma a base da sua experiência psicodélica. Podemos dizer sem medo de errar que o produto da sua experiência é um resultado dessas três variáveis. Como você está? Onde você está? O que vai usar? Três perguntinhas que precisam ser bem respondidas e estabelecidas em sua mente. Porque disso?

Simples, os alteradores tem o poder de retirar de dentro de você todo seu conteúdo mais oculto, e simbolizar isso das formas mais variadas. Me recordo de uma pessoa que teve uma experiência muito difícil sobre parar de comer carne, onde via o gato dele sofrendo, e depois bois passando ao redor dele. Essa experiência só fez sentido porque usou do repertório de imagens e idéias da pessoa para se comunicar com ela. Se eu não tenho gato e vejo isso, nada me simbolizará. A substância faz uso de todos os seus repertórios para se comunicar com você, e cada substância usa mais algumas vias do que outras. Por exemplo, a Ayahuasca é uma substância muito visual, te produzindo várias imagens em sua tela mental, até chegar no ponto onde você somente vê com seu terceiro olho (o que chamam de Mirações). Já a Cannabis é uma substância extremamente sensorial e intelectual, se comunicando com você através de sensações e insights.

Trabalhar com substâncias alteradoras envolve entrega, pois você está entregando seu livre-arbítrio para aquela substância, que no decorrer de algumas horas irá comunicar pra você o que ela sente ser necessário, baseado no professor elemental que a planta tem. Devido a isso, uma dica importante que dou para iniciantes é também a de ter uma Babá de Onda, o chamado Trip Sitter. Ele será uma pessoa que tem mais experiência com alteradores (ao menos o alterador que você está usando no momento), e ficará do seu lado o tempo que for necessário, criando uma atmosfera positiva pra sua viagem. Eu não poderia enfatizar mais a necessidade de um sitter na sua primeira vez. Não tome uma substância desconhecida sozinho. Não faça isso. Não, simplesmente não. Todo psicodélico tem o potencial de lhe levar pra uma realidade paralela, e você as vezes não consegue conceber que o que está vivendo faz parte de uma onda, e é onde mora o perigo. Muitas tragédias já ocorreram pela falta de um sitter pra estar com a pessoa. Não pense que será tranquilo, que qualquer coisa você dá um jeito… não. Pessoas assim acabam criando um mau nome para os psicodélicos, pois perdem o controle da sua experiência e acabam tomando atitudes desesperadas, para ver se saem da experiência. Você toma remédio sem prescrição médica? Se sim, então já vi que se dará mal nessa estrada de alteração.

Além disso, posso dizer sem sombra de dúvida algo: você nunca usa um alterador sozinho, mesmo que queira. Certas substâncias, como os alucinógenos, expandem sua aura e abrem todas as suas guardas astrais, expondo seus chakras a todo tipo de seres que possam estar passando por ali. Por isso que não é uma boa idéia conjurar um espírito na força de uma planta, a não ser que você já conheça ao menos a substância que está usando, e que tenha formas de lidar com invasores. Mesmo tendo tudo isso em mente, sofri uma séria interferência ritual nesse texto aqui, e que bom que estava firme em intenção, ou o rito teria ido por água abaixo. Se você não está realmente guarnecido, pode acabar virando uma ótima pilha para sofredores e obsessores, e sua vivência virar uma zona. Se você já tem uma sensibilidade energética naturalmente, tenha certeza que seu uso irá soar como uma luz neon pra esses irmãos, que irão lá ver o que está acontecendo. Você nunca usa sozinho. Lembre-se disso.

Se você tem na sua história familiar pessoas com transtornos psiquiátricos, ou você mesmo os tenha, talvez seja bom pesquisar mais sobre a substância, e perceber se ela pode desencadear tais transtornos. Falo isso pois já houveram tragédias aqui no Brasil que envolveram a falta de uma boa entrevista antes de ceder a substância para a pessoa. Não brinque com isso, existem outras formas de atingir gnose que não irão colocar em risco sua saúde mental, sendo este o caso. Nem todas as pessoas podem comer sal ou açúcar inadvertidamente, da mesma forma nem todos podem se drogar inadvertidamente, e assim é a vida. Priorize sua saúde.

Somente, e realmente somente após todo essas dicas, é que eu recomendaria você a usar uma substância em um ritual. Fazer magia evocatória é por si só uma arte que leva tempo para ser entendida. Com drogas no meio, mais ainda. Tudo que você sente num rito, ganha textura e profundidade com substâncias. Os seres podem penetrar seu eu e lhe trazer todo tipo de influência, que pode ser positiva ou não, depende do que você está contactando. Você não terá a mesma atmosfera elevada das conjurações angelicais ao trabalhar com Daemons da Goécia, e não será a mesma coisa de incorporar uma entidade. Cada experiência espiritual traz suas características, e devido a isso, sempre vale ressaltar: conheça a substância, e conheça o rito, pra depois pensar numa mistura. Eu não trabalharia com seres ctônicos facilmente com alteradores, começaria com seres mais elevados (até os cacodaimons da Magia Planetária já são difíceis de lidar, imagina o Rei Beleth!).

Dou um passo por vez, sem pressa, e foi assim que cheguei aqui. Com alteradores, o melhor a se ter é paciência, e não ter pressa. Experimente a substância primeiro em doses baixas, conheça seus mistérios, e somente depois pense em ir mais fundo, e a tentar magia com a consciência alterada.

Se cuidem!

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