Porque invocar espíritos? Reflexões sobre a Magia Cerimonial

Essa foi minha pergunta durante muito tempo. Eu lia muito, entendia vários dos aspectos teóricos sobre magia, mas nunca havia tido o ímpeto de entrar no círculo e conjurar ser algum. Eu pensava “Tá, eu chamo esse ser, e aí vou fazer o que com ele na minha frente?”. Eu ainda não tinha o entendimento de que precisava modificar toda a minha cosmovisão para entender porque invocar espíritos.

Nascendo no Brasil, moramos num país que se diz laico, mas está longe de sê-lo. Somos uma nação cristã, isso é inegável. Nosso calendário segue a lógica cristã, nossos principais feriados o são, boa parte daquilo que fundou os alicerces de nossa nação tem a ver com o cristianismo, então é lógico que nosso pensamento é moldado por camadas e camadas de pensamento judaico-cristão. E isso permeia o mundo iniciático, mesmo que você não queira, e se ache bem liberto.

Todo meu estudo espiritual foi impulsionado por um grupo que fiz parte por anos, um grupo que se dizia cristão. Tenho memórias ricas e valiosas da minha estadia nesse grupo, porém era questão de tempo para que uma cisma se iniciasse. Dentro de mim já existia algo que não tinha cor, voz ou cheiro, mas já era ruminado pelo meu espírito. Esse algo se chamava “Eu não sou cristão, ao menos não da forma que se concebe imediatamente”.

É um passo importante no trabalho magístico o entendimento da Cabala, porém quando você mistura Cabala com pensamento cristão, nascendo então a famosa Cabala Cristã, percebo um mal-estar surgindo. O cristianismo é permeado por vários tons do que chamo de “culpa cristã”, um termo criado por um grande amigo. Basicamente, é o pensamento de que você precisa sofrer para atingir a felicidade. A culpa cristã em meios espiritualistas é terrível, mas em meios esotéricos penso que é pior, pois pega o conceito espiritualista de reencarnação e joga o Pecado Original no meio. Agora não somos pecadores apenas, somos almas pecadoras, almas que cometeram erros terríveis em outras existências, e precisam agora pagar por seus crimes fazendo caridade em massa. O pior é juntar isso a Cabala, que vem dos Judeus, que também tem uma mentalidade de vaquinha de presépio. Você só tem direito a louvar YHWH, você não pode pedir nada pra você, você não tem direitos, pedir é algo inferior, pois você como Kli, só pode ficar ali a serviço do Criador.

Meu primeiro contato dissidente foi o Candomblé. Nunca me esqueço de perguntar sobre caridade pra Iyalorixá e ela me responder que a maior caridade que o Candomblé faria seria cuidar de você, e que se você estivesse bem e feliz, poderia auxiliar melhor o próximo, sem muito pedantismo espiritual. Isso gerou uma cratera no meu suposto pensamento estruturado de espiritualidade caritativa. Como assim, pensar em você?

Essa ferida foi ganhando tamanho na medida que os anos passavam. Realmente, quanto tempo as vezes gastamos pensando em caridade, mas as vezes nossa vida está caindo na nossa frente, porém, você não tem escolha. Tem que fazer caridade, servir, ajudar. Eu me tornei um robô iniciático, só repetindo o discurso que os supostos mais graúdos faziam. E um dia tudo desmoronou, quando, através da necessidade, comecei a ler sobre Magia Cerimonial de forma mais profunda, e fui me emaranhando pra além da Cabala, indo para o Hermetismo.

Eu gostaria que toda pessoa que busca espiritualidade lesse mais sobre Hermetismo. Resumindo muito rapidamente, a visão de cosmos do hermetismo coloca o magista numa posição central, e livre. E finalmente eu consegui ter a resposta para aquela constante pergunta, “Porque invocar espíritos?”. Porque ser iniciado e desperto é o grande pulo do gato, no Hermetismo. Quando você realmente descobre que é algo além de sua armadura de carne, que possui dentro de si a fagulha divina imortal, descobre também que toda uma sorte de seres e inteligências criadas para manter o cosmos, querem trabalhar com você, sendo esse seu direito herdado através do Pai. Você, magista, é o senhor do seu próprio reino, e todas estas forças superiores lhe querem bem, pois você é o filho amado de Deus.

Quer dizer que eu tenho o direito de invocar anjos e arcanjos, desde que tenha humildade e deferência em meu coração. Eu posso me associar a essas forças, e realizar Abrahadabra, como diz a fórmula mágica do Aeon, palavra que se traduziria como “Eu crio enquanto eu falo”. O magista não é aquela pilha de contas a pagar, prazos pra entregar e louças para lavar. Ter a mentalidade do magista lhe pede distanciamento de toda matéria, mas dentro de seu coração, simbolizando que ele não é escravo dessas forças. Mas pode, por direito herdado, clamar por auxílio para estas forças. Esta visão se associa muito com a visão Yorubá de saúde. Para os Yorubás, os Orixás foram criados pelo Pai Maior Olodumare, e são enviados pro Aiye, a Terra, para auxiliar a humanidade na vida dura aqui nesse plano. Então, sim, é lícito pedir!

Existe um ditado hindu que diz algo mais ou menos assim: “Se associe com ancestrais, e se tornará um ancestral. Se associe com Deuses, e se tornará um Deus”. Sempre que nos associamos repetidamente com alguma força, por reverberação, suas características superiores reverberam com minhas características humanas, e as enaltecem. Se fazemos um rito para Sachiel, arcanjo de Júpiter, podemos a cada rito nos tornar mais prósperos, mais nobres, mais reais, pois esses atributos já existem dentro de nós, e estes seres despertam estas forças em nós.

Quando fazemos magia cerimonial, temos um trabalho mais árduo. Precisamos continuar o nosso lapidar da pedra bruta interior, nosso constante debastar de nossos vícios, e erguer templos para nossas virtudes, e ainda se colocar a disposição de todas as forças que conjuramos, para que elas trabalhem aquilo que acharem melhor em nós. Nada fácil, mas muito proveitoso. No vai-e-vem das forças mundanas, o magista precisa aprender a estar no mundo, sem ser do mundo, como diz a Bíblia. Não é ao acaso o sentimento crescente de que, ao praticar magia, você parece estar progressivamente “a parte” da sociedade humana. As pessoas pensam que existe uma sociedade imensa de magistas, todos com suas práticas e artes, e isso não poderia ser mais errado. Seu Exú Caveira, guardião da minha família, um dia disse: “Só se desperta o desperto”. Frase dolorida, mas real.

“Nós não temos nada a ver com o proscrito e o incapaz: que eles morram na sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é o vício dos reis: dominai o miserável e o fraco: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo.” – Liber AL II:2

Se você considera que Crowley trouxe uma nova corrente ou era apenas um idiota, tanto faz. Suas palavras marcam mesmo assim. Estou longe de ser um rei, tendo mais em comum com um vagabundo errante. Mas sou rei do meu Reino. E aprendi que, por direito herdado, tenho a meu lado hostes de forças, que sopram em meu ouvido os melhores caminhos, que apoiam meu corpo em momentos de queda, que ouvem meu lamento, e se jubilam com minha vitória. Sendo assim, eu posso – e você também! – conjurar anjos, arcanjos, elementais e daemons em meu lar, cada um a seu modo, cada um com seu rito, pois eles sabem que sou filho do Rei.

E você também é.

Música: A Ka Dua, de James Stone

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