Quimiognose: a linha tênue entre usar e viciar

Usuário de crack e seu cachimbo consagrado de larvas astrais

Você já se perguntou porque existem viciados em drogas? Essa parece ser uma resposta fácil: porque drogas são viciantes, lhe transformando em um zumbi sem vontade, torrando seu cérebro em dias. E se eu lhe falasse que essa idéia é totalmente furada? Pesquisas feitas nos EUA (você pode ler mais sobre aqui) demonstraram que os usuários não são carniçais sem força, mas sim, pessoas com ausência de escolhas. Elas usavam drogas compulsivamente porque suas vidas estavam ruindo, e não tinham auxílio. E também, por um fator que talvez poucos levem em consideração: a verdade é que usar drogas é extremamente prazeroso.

Minha jornada nos alteradores, como disse, começou na Ayahuasca, onde permaneci por mais de uma década. Nesse ambiente, eu me sentia totalmente distinto de usuários de drogas, pois fazia um uso religioso da substância, lícito, moralmente questionável por conservadores, mas legalmente correto. Porém, logo conheci a Cannabis, e muito disso veio a ruir.

Ainda me recordo da resistência enorme que tive com a idéia, mas uma pessoa de confiança estava me oferecendo a experiência, então fui. Recordo de estar lá, sentindo a força canábica se mostrando em seu ápice… e de ficar estupefato. “Meu Deus”, eu pensava. “Isso é MUITO bom!”. E em seguida, pensava em décadas e décadas de falta de informação entre jovens, e o uso precoce que realmente prejudica a formação de várias áreas do cérebro. Minha nossa, agora entendia porque as pessoas viciavam em Cannabis. Era algo prazeroso demais pra não querer de novo.

Eu já tinha contato com usuários de drogas através de vários trabalhos feitos com eles, mas agora a coisa era outra. Eu estava usando uma substância que é o carro chefe da contra-cultura, sendo combustível para tantos movimentos, e afundando vários jovens na compulsão. Afinal, ela é a porta de entrada para o “mundo das drogas”. Eu adoro essa expressão. Faz parecer que o mundo das drogas é algo “lá”, entende? Longe. Um bairro pobre que você não quer entrar, porque é perigoso. E não percebe que o mundo das drogas é do nosso lado.

Quem aqui não conhece uma pessoa que toma Dramin para viajar de ônibus ou avião, mesmo sem precisar? Ou talvez você tenha um parente que não dorme mais sem tomar Rivotril, o remédio com mais receitas distribuídas no SUS. E aquele cafézinho de manhã que sem ele, você experiencia dores de cabeça e um mau-humor crônico? E aquela farmácia que vende remédios sem receita? O bodybuilder que injeta hormônios de cavalo pra crescer? Que mundo das drogas é esse, tão distante? Eu já não concordava com essa terminologia, e agora usando várias substâncias, ficava mais difícil.

Quando digo que trabalhar com Quimiognose é árduo, é porque agora você tem mais uma variável para equilibrar em suas práticas, que é a constante tentação de usar de novo. Eu chamo de meu “capetinha”. O capetinha quer prazer, prazer imediato, prazer agora. O capetinha é meu sistema de recompensas, um sistema do cérebro que serve para catalogar tudo aquilo que lhe dá prazer, para de formas instintivas lhe sugerir alternativas para evitar dor e maximizar sua existência. O cérebro é uma máquina de querer prazer através de dopamina, serotonina, endorfina. E todos nós vivemos imersos nesse embate com ele.

Levante a mão (ninguém vai ver) se você já tentou fazer dieta e falhou. Agora você tem um culpado: seu sistema de recompensas ficou fissurado na liberação dopaminérgica que aquela comida cheia de carboidratos lhe traz. Uma resposta que existe de herança genética dos nossos antepassados primitivos, que precisavam comer carboidratos quando tinha, pois não sabiam quando caçariam de novo. Por um acaso, boa parte dos comportamentos que são prazerosos para o cérebro tem uma relação com a manutenção da sobrevivência. E aí que entra o problema.

Qual a função de uma droga, que não puramente sentir prazer? Você pode dizer que as substâncias lhe dão vários insights sobre sua condição humana, encontros com seu eu verdadeiro, e que facilitam a Gnose, lhe trazendo com mais precisão as mensagens dos planos sutis da existência. Mas seu cérebro não liga pra nada disso. Ele quer prazer. Ele quer que você coloque de novo aquela coisa estranha no seu corpo, pois ela inunda seus receptores cerebrais com várias substâncias que eliciam no cérebro sensações extremamente interessantes e prazerosas. A coisa começa devagar. Você tem experiências extremamente significativas, claro que vai de novo naquele ritual com Ayahuasca. Não são todos, mas alguns, começam a querer demais aquele lugar, as pessoas… e pronto. Você se tornou um dependente emocional de substâncias, sem perceber.

Os índios, detentores das verdadeiras sabedorias das plantas, criticam o uso da Ayahuasca e de outras medicinas pelos brancos. Alegam que eles corrompem seu sentido principal, e que estão transformando algo sagrado em uma busca de êxtase, a busca por algo diferente de sua realidade ordinária…apenas pelo prazer. Não consigo discordar deles, e aplicaria isso a várias substâncias. Inclusive, me incluindo como culpado.

Como não querer uma rápida dose de Cannabis após aquele dia cheio e estressante, se você sabe que basta um ou dois pegas… e tudo vai embora? Qual a diferença disso pra se afundar no sofá e ver ininterruptamente programas repetidos de TV, ou passar a tela do seu celular pro lado ou pra cima por horas em redes sociais? Todos nós temos nossas fugas, nossas válvulas de escape. O problema é quando sua vida está tão atormentada que esse momento se torna seu único refúgio de prazer. Mais um ponto para o caminho das plantas: para não virar estatística, você precisa conhecer e enfrentar o maior de todos os males humanos: o prazer. A verdade é que nós sabemos muito pouco ainda de como lidar com ele.

Não nego que já abusei de várias substâncias, algumas conscientemente, outras não. Quando olho o uso desenfreado de Ayahuasca que muitos grupos fazem, mesmo em meio a pandemia (vários grupos se reúnem mesmo com as mortes em ascensão), me pergunto se isso é fé ou na verdade uma dependência emocional não assumida. Acho que crescemos bastante quando admitimos nossas máculas e dores, e eu admito prontamente que minha relação com as substâncias alteradoras é uma constante construção e desconstrução de conceitos. Se Crowley foi viciado por eras em várias drogas como heroína, se Blavatsky não cuidava da saúde e era viciada em nicotina, como posso eu me criticar pelas minhas falhas? Estou aprendendo também.

Estou me construíndo nessa estrada, e todos nós estamos. Todos precisamos de válvulas de escape. Algumas só são ilegais onde você mora, mas você pode fingir que está tudo bem na sua vida enquanto gasta horas nas suas redes sociais. Afinal, você paga suas contas e ainda não vendeu seu celular em troca de drogas. Mas estamos na mesma arena. Somos todos crianças, aprendendo a lidar com prazer, a matéria prima do céu e do inferno de nossas vidas particulares.

Música: Coma White, de Marilyn Manson

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