Goécia e demônios: o crack da espiritualidade

Ah, a (mal) afamada Goécia e seus 72 demônios, ou daemons, como prefiro. Cedo ou tarde você, magista em treinamento, irá passar seus olhos sobre a existência deste grimório cheio de controvérsia. Desde gerar riquezas, sexo a destruir seus inimigos, a Goécia paira o imaginário moderno como uma fonte perigosa e infindável de prazeres. Após muito tempo, finalmente coloquei meus dois pés neste universo, e estou aqui para lhe afirmar com toda certeza: Goécia é o crack da espiritualidade.

Uma pequena contextualização. Eu estudo magia a anos, e comecei minha magia prática, graças aos bons céus e algumas doses de Ayahuasca, na Magia Planetária, trabalhando com os Arcanjos que regem os sete céus. Eu não sabia na época, mas minha intuição me guiou pelos caminhos corretos, pois nunca devemos olhar para as sombras se nossa luz interior não estiver firme. Através dos anos, fui seguindo este caminho, mas sempre com aquela coisa na alma, aquele misto de curiosidade, necessidade e ímpeto, que me chamavam pra Goécia. Finalmente, após anos rondando, eu iniciei as práticas, e posso dizer que foi uma agradável (e assustadora) surpresa.

Debates sobre a natureza dos 72 Daemons existem a séculos. Algumas fontes seguras (Stephen Skinner e seu “The Goetia of Dr. Rudd”, principalmente) afirmam que o trabalho com seres decaídos é mais antigo que se imagina, trazendo suas origens nos primórdios da Magia de Salomão, que é com o próprio Salomão. Existem relatos em várias fontes que afirmam que o próprio Salomão fazia uso de conjurações com seres inferiores para erguer seu império. Afinal, Salomão comandava os 72 espíritos dos céus e da terra. Ele, como mago arquetípico, tinha todas as forças do mundo sob sua tutela.

A minha cosmovisão sobre o assunto vai mais para o caminho do Hermetismo. Existem três planos na realidade: o plano Celestial, que corresponde aos 7 céus dos planetas clássicos, mais a oitava esfera das estrelas fixas (as 12 constelações do zodíaco) e o primum mobile, o primeiro motor original; o terreno, que é onde vivemos; e o ctônico ou submundo, que é o plano das forças densas e que criam as estruturas da matéria. Os Daemons da Goécia vivem neste submundo, eles nunca existiram como seres encarnados.

Minha primeira conjuração goética foi um sucesso – e ao mesmo tempo um fracasso. Pulei etapas do ritual, querendo realizar algo mais simples, e isso resultou em um encontro extremamente tenso com o Daemon escolhido, que foi Orobas, o espírito número 55 da Goécia. Na descrição diz que ele seria um espírito muito fiel ao magista, e que não lhe faria mal.

Realmente ele não me fez mal algum, mas foi a primeira vez que tive contato com uma força, digamos, PUTA, full pistola por estar ali. Acostumado a trabalhar com Arcanjos e Deuses, que são tão superiores a nós e nos guiam, fui pego de surpresa. Orobas não estava nem um pouco feliz de estar ali. A sala estava tomada por uma energia de ira tão intensa, que eu entendia porque muitos os chamam de demônios. É algo denso, pesado, parece que uma tonelada de profanidades entrou dentro de sua casa.

(não precisam nem perguntar: sim, eu usei Cannabis para evocar o Daemon.)

A situação foi tão tensa, com aquela força irada querendo muito saber porque diabos foi evocada, que sem perceber entrei na energia, e acabei agindo de forma ríspida com o Daemon, e me atropelando na hora do principal, que era o contrato. Não funciono muito bem de improviso, preciso escrever minhas conjurações…

A sensação após o final do rito foi a de ter pulado de bungee jump. Adrenalina a mil no corpo. E aí, o tempo pedido para a realização da demanda foi cumprido, e em um dia que tinha tudo pra ser tranquilo começou a se tornar extremamente denso e cheio de desentendimentos. De consciência alterada (pois estava consagrando no dia), pude ver claramente que o Daemon estava cobrando minha parte no acordo, me irradiando com suas energias e criando discórdia. Puta merda, mexer com essas forças não é brincadeira! Você é exposto a sua sombra e aos seus piores defeitos, pois sombra chama sombra. As energias densas do Daemon, ao se aproximarem de você, trazem a tona os seus desequilíbrios. E eu, que tinha até desistido de mexer com Goécia, estava ali preparando o próximo rito.

Pagamos o prometido ao Daemon em uma segunda conjuração mais harmônica que a primeira, pois eu havia estudado mais. E aí vi que o Daemon estava nos testando o tempo todo. Como um professor bem severo e ardiloso, nos fez passar por nossas próprias sombras, testando nosso entendimento como magistas. Afinal, o grande príncipe Orobas, que lidera várias legiões de espíritos, não ia fazer serviço com qualquer um. Aprendi que as vezes os Daemons nos testam de várias formas, para saber quem somos, e onde estão enfiando. A lida com o Daemon é muito pessoal. Muitos iniciantes evocam essas forças e tudo sai tranquilo, mas por algum motivo ainda não entendido, Orobas resolveu nos por a prova.

Logo após a segunda conjuração, várias coisas encaminhando, sem eu nem mesmo ter pedido. E aí que mora o maior perigo da Goécia: ela funciona maravilhosamente bem para seus desejos, seja quais forem. Os Daemons regem a matéria, mas não somente isso, são grandes professores das mais diversas artes e ciências, da astrologia ao canto. Nos revelam inimigos ocultos, e ensinam formas de retribuição. Geram amor, mas também o destroem. Faça um bom relacionamento com os Daemons, e você tem nas mãos uma chave tão poderosa, que dá medo.

A Goécia revela nossos corações. Por isso o trabalho com as forças noturnas deve vir após muito trabalho teúrgico, com forças superiores que te estruturam e fazem você crescer. Sem isso, ocorre o que se tem muitos relatos: os Daemons lhe sobrepujam, lhe fazendo uma marionete de suas vontades. Não estou muito afinado com a idéia de virar uma pilha para estas forças, mas estou gostando bastante do trato com elas. Como diz Thomas Karlsson, as forças noturnas e qlipoticas são terríveis, mas nos relacionamos com elas pois crescemos e nos fortalecemos. A Goécia é definitivamente um trabalho de mão esquerda, onde muitos podem se perder em seus infindáveis prazeres. Cada passo tem que ser dado com muita cautela.

Eu com certeza terei mais trabalhos com estes Daemons que mal conheço mas já considero pacas. Em poucos ritos, Orobas me ensinou tanto sobre magia e sobre mim, já me protegeu tanto, que é difícil não ter uma consideração. Sou sempre grato pelas forças que me auxiliam, e hoje aproveito este simplório post para agradecer a esse ser que já moveu em semanas minha vida de formas tão poderosas. Um pequeno poema pra Orobas.

Orobas, líder de seu principado
Faço a ti este pequeno fado
De palavras inspiradas pelo teu ser
Ó Grande príncipe, me faça perceber
As serpentes que rondam meu castelo
A malícia atrás de todo ato singelo
Para que corte as cabeças venenosas sem penúria
Ó grande príncipe, tu que invade de luxúria
Meus sonhos, a me lembrar
És sombra que estás perto, a cavalgar
Pelos sombrios cantos da consciência
Um amargo gosto de reminiscência
E me ergue para o palco do viver
Tu és realeza, e inspira grande nobreza
Amigos e inimigos a nos engrandecer
Eu aqui tenho grande certeza
De que contigo já estou a crescer
Professor severo, de forma muito irada
Que remove camada por camada
De minhas presunções e indecências
Grande príncipe, teço estas simples linhas
Enaltecendo tuas virtudes
E elas não estarão sozinhas
Pois sei que estão nas infinitudes
De brados e louvores destinados a vossa força
Ágios Orobas
Ágios!

Música: Goetia, de Peter Grundy

Um comentário

  1. Caraka! Muito bom. Nunca achei exagero quando a galera fala de tomar cuidado com goécia. É exatamente isso, tu vibra numa faixa e de repente tu te torna a faixa. É muito fácil ser manipulado se o cabra não tá ciente das próprias limitações. Conhecer a própria sombra é imprescindível na jornada magística. Labutar com daemon já outra onda. Valeu Eremita! Tu é um cabra retado de bom!

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