
O vento sopra, a água vem, enfim
A tarde quente, agitada, esfria
Sem folego prometia o dia ir longe
Os copos usados esperam na pia.
Roupas dobradas, usadas, num canto
Remédios, perfumes e cheiros bons
Um carregador, uma música, um canto
Lembranças que se movem como protons.
Você passou, quente como ferro
E o tecido do tempo amarrotou
Dobrando a esquina da existência
Na encruzilhada do quarto, gargalhou.
O terço de contas, um ábaco
Medindo as histórias contadas
Ampulheta de areia que esvai
Numa praia de tempo, multifacetada.
Tantas coisas ruins que ficaram
E que agora foram enterradas
Nessas areias do tempo franzido
Sobrepostas, boas são criadas.
Tantos sorrisos, palavras não ditas
Olhares que falaram demais
Um amor impronunciado
Mais declarado que esse, jamais.
Uma rocha que pulverizou
Pelos trancos que a água lhe deu
Hoje nada mais é que areia
Da praia de um anjo ateu.
Quem me dera seguir as pegadas
Desse anjo amaldiçoado
Que tão santo me trouxe o amor
Que deveras busco atordoado.
Tal amor impensado e não dito
poderia então nunca existir
com o poder desse anjo bendito
rastros fortes deixou no devir.
Anjo louco te peço: clemência!
Nunca apague esses rastros da mente
Que pra sempre eu possa lembrar
Que o tempo se dobra indecente.
A tristeza e o infortúnio se vão
Quando o espaço se abre pro além
Um tecido plissado é bonito
Costurado com a linha do bem.
Dimitri Barêa – O Frater Malone

