A guerra dos seios

Música para ouvir durante a leitura: Vaca Profana, Gal Costa.

Na kabbalah aprendemos a receber, e então a humanidade é receptora, pois nada temos o que doar ao Criador. E este por sua vez é o pleno doador, e não há o que precise receber.

Quando despertamos o desejo pela espiritualidade e buscamos montar o quebra-cabeças, até pensamos em ter as características da doação, mas não temos equivalência de forma. É então que vamos aos poucos buscando o equilíbrio entre o receber do Criador e o doar para nossos semelhantes, e assim compreendemos mais a doação.

O masculino é doador, entrega a semente da vida, e o feminino à recebe e então gera. O yang é expansivo, idealista, a criatividade e intuição que extrapola a realidade e vê a poesia transcendente na matéria.

O feminino é recebedor, acolhe o que lhe entregam, cuida, limpa, nutre. Yin é restritivo, educa, firma, condensa, concretiza, reduz o que é irreal e faz pensar melhor para fazer o ideal mais concreto, vê o que é palpável, possivel.

Buscamos então o equilíbrio entre o idealismo yang e a possibilidade viável yin, e filtramos adequando sem nos perdermos na realidade fria, com a poesia que a transcende, mas sem derretermos as asas de Ícaro na fantasia que se distancia da realidade. Assim criamos uma linha do meio, e ascendemos.

A humanidade enquanto receptora do que a Hateva (natureza em hebraico), nos entrega, é feminina, e Hateva, a mãe doadora, uma força masculina, nessa visão cabalista, pois é a plena doadora.

O que estamos presenciando, entretanto, socialmente é uma mitigação misógina do que o feminino representa. Quem cuida, nutre, limpa e exerce funções yin, recebem menos, têm o trabalho desvalorizado, e tais funções são axiomaticamente inferiores. Funções expansivas de criação, publicidade, arrojo financeiro, construção, elaboração, planejamento, são valorizadas nessa escala.

Não há como se construir uma obra sem limpeza. Não há planejamento sem foco e noção de realidade, não há arrojo financeiro eficiente sem medo de perdas e ninguém vive sem quem lhe faça comida. É inegável a força e o poder yin no equilíbrio para se trazer para a realidade material o que fica no campo das ideias.

Na alquimia temos o equilíbrio de forças na evaporação em que o calor do fogo agita a água fria e a faz se elevar, para depois então se resfriar e condensar novamente mais pura. Até que se faça novamente a destilação evolutiva, dialética.

É preciso então sair da dualidade conflitiva e transcendê-la de forma a compreender que todos somos yin e yang. Precisamos de encontrar e respeitar ambas as energias em nós.

Se ficamos puramente yang, nos perdemos da realidade e não conseguimos concretizar sonhos, nem sabemos o que de verdade queremos e a consequência é o extremo yin, em que nos contraimos severamente, frustrados com as asas derretidas, e deprimidos nos enterramos como sementes esperando brotar de forma yang novamente, saudável e curados.

Essa mitigação do feminino é percebida não apenas pela desvalorização do labor nas funções mais yin, mas na misoginia como um todo. Na negação ampla do yin. Estar calado é errado, ficar só é absurdo, ter o gozo da própria companhia é estranho, o corpo da mulher não é aceito como é, precisa sempre se encaixar pois parece inadequado, peito pequeno demais, grande demais, torto demais, nadegas assim ou assado, vaginas (até vaginas!) inapropriadas e que precisam de uma correção cirúrgica.

Buscar a forma desejada e concretizar os planos de um corpo que deixa feliz é algo louvável, e que expressa a realização da verdadeira vontade, se esta se adequa de fato a isto.

O que fica para a reflexão é: qual a gênese desse desejo? Ele nasce da insatisfação própria do ser enquanto alguém que não se vê na imagem que se apresenta, ou foi plantado por todo um ambiente misógino que não aceita a naturalidade de estrias, celulites, curvas e dobras que tornam únicas as que as têm? Até onde nossas decisões por padrões estão sendo ditadas com fotografias perfeitas, ideais, inexistentes tal como o exagero do yang quando busca voar até o sol?

Vivemos num mundo onde homens no extremo desequilibrado yang negam de todas as formas e afastam o feminino, de forma acintosa, objetificadora e nada do que se diga para que seja observada a realidade, de modo a condensar essa fantasia e idealismo próprios em algo palpável, é validado. Dirigentes que levam aos extremos seu idealismo sem crivo do que é possível, sem a reflexão própria do que é yin pois este foi bloqueado e seu fluxo estagnado. Falta yin na decisão!

Como sociedade fomos forçados à contenção, à reflexão, e mesmo assim o que temos é mais força yang, tentando burlar a contenção e ignorando a oportunidade de transcender essa guerra desnecessária.

São tempos de se valorizar o feminino, o yin, não para que se sobrepuje seu complemento, mas que exerça plenamente seu potencial e o complemente de fato.

No ciclo feminino a lunação ou período de regras, é o momento mais yin e reflexivo da mulher. Saber filtrar os pensamentos e se utilizar da tristeza e melancolia próprios e úteis para esse esfriamento e destilação são imprescindíveis. Emendar comprimidos para negar essa fase é colocar mais lenha no fogo, evaporando mais e mais sem condensar, sem chover, sem permitir sequer que se veja para onde se vai com tanta nuvem. (A humanidade está menstruada e tenta pular essa parte?)

Saber respeitar o feminino como uma força da natureza é valorizar a própria Hateva em toda sua essência. Compreender que o corpo não deve se encaixar num padrão, pois não existe padrão, mas existe o fato de que somos seres únicos e a beleza está nessa exclusividade.

Alguém teve um sonho em que todos os negros passariam a ser respeitados por serem quem são e não precisariam se encaixar em expectativas quaisquer (salve Martin!) e então lutaram por isso e estão em luta até hoje. Sonho com o dia em que as mulheres se dão conta de que essa mesma revolução pede um grito de “basta” , de “não dá mais” e que não há razão para que o feminino seja mitigado, pois a humanidade é feminina em sua natureza receptora. E então todas sairão sem camisa e ninguém verá diversão, mas a seriedade do feminino.

Negar o feminino nos faz cada vez menos humanos. E a natureza cada vez menos natural, pois até ela tem sido encaixada.

Que os seios sejam o símbolo da força nutridora da mulher, da beleza intrínseca do equilibrio em que o receptor pratica a doação, do humano que se encontra no divino e na perfeita completude entende que não há guerra nem hierarquia entre gêneros, entre energias, entre Deus e humano.

Um seio é o mais perfeito emblema de que podemos receber para doar sem perder nem yin, nem yang, mas possibilitar o fluxo contínuo da vida, gotejando ou jorrando em que encontramos a equivalência de forma.

Malone

Imagem 1, Franklin de Freitas/Folhapress, na Marcha das Vadias.

Imagem 2, Joséphine Neubert.

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