Agressividade

Já se ouviu dizendo essas frases?

“Ele me deu um gelo…”

“Estávamos de boa e do nada ela sumiu, parou de interagir.”

“Precisei dar um tempo, quero ficar mais em casa.”

“Eu entro na minha concha até me reenergizar, preciso refletir.”

Que movimento energético é esse dentro de mim?

A medicina chinesa estuda vários aspectos da nossa psique, e de forma didática elabora a teoria dos cinco elementos, as formas como nossa energia vital se movimenta.

No ocidente, a evolução dessa percepção energética passou pelas pulsões freudianas que nos ampliam ou retraem e possibilitam nosso desenvolvimento – a libido como uma forma de manifestação dessa energia. Reich ao perceber a resposta somática das experiências psíquicas, compreendeu que a energia se manifestava de forma mais ampla, e criou o conceito de orgônios. Jung ampliou mais essa percepção ao tratar da Energia Psíquica e não meramente da libido e compreendeu a energia enquanto ação distintamente de energia enquanto intenção. Jung entendeu que a energia não se divide em tipos distintos, mas que se reúne, como fenômeno, em si diversas forças e condições. A estas é que se pode atribuir qualidades.

A libido pode progredir ou regredir, segundo ele (Princípio Hermético do Ritmo, da Tábua de Esmeralda, de Hermes Trismegisto).

Winnicott estudou amplamente durante suas pesquisas a origem da agressividade, e concebeu que tanto a manifestação ativa de uma agressividade, quanto passiva, são formas de um mesmo fenômeno, e que a fraqueza, retraimento, omissão, são tão agressivos quanto seus equivalentes opostos diametralmente.

Uma criança quando se frustra, sente raiva e se manifesta agressivamente em relação ao que não pode alcançar, um peito que sai da boca, uma cólica que não se resolve com um carinho, ou um desejo não atendido em sua forma originalmente esperada.

Cada vez que ela lida com essa agressividade, a expressa, e se resolve internamente em relação às suas frustrações, ela cresce, se desenvolve, e nasce novamente para ser uma pessoa com um nível acima do anterior em sua compreensão de mundo.

A energia Hun descrita na medicina chinesa, manifestada e abrigada pelo meridiano do Fígado (Yin) e da Vesícula Biliar (Yang), faz justamente a ligação do que ocorre dentro com o que ocorre fora, presente no primeiro choro, na primeira palavra expressa, e em cada vez que essa agressividade que nem é positiva e nem negativa é manifesta, e faz com que o ser evolua, cresça, como uma árvore, que representa o elemento chamado de Madeira, justamente por isso, na Medicina Chinesa.

Não há como se dar uma faxina, fazer sexo, começar a correr, abrir um negócio, começar uma amizade, criar novos hábitos, sem que essa energia passe pelos processos que fazem parte de sua essência.

A pulsão por sexo, a libido, a agressividade, são manifestações que precisam da energia Hun bem estruturada para que nos possibilitem evoluir, renascer e dar brotos, como a árvore.

Voltando à questão do Princípio Hermético do Ritmo, essa agressividade precisa sim de expansão em sua forma yang, manifesta através do sexo, do movimento, da atividade física, da execução do que precisa ser feito, dos sonhos, de transformar o impulso em ação. Igualmente é imprescindível que o mesmo movimento da energia Hun, guiada pelos meridianos do movimento madeira, o Fígado e Vesícula Biliar, se expressem em sua forma Yin, ou seja, de retração.

Em nossa vida quotidiana sempre damos um passo rumo ao desconhecido, ao sermos abordados por alguém que quer vender um chip telefônico, ao respondermos uma mensagem, ao expressarmos nossos sentimentos a alguém, ao dirigir. Quando o que esperamos de resposta a esse passo no escuro não confere com a realidade, a frustração pode tomar o lugar da esperança, e a “raiva”, ou melhor, a energia Hun que se manifesta, pode ser expressada com um sonoro palavrão, uma expressão facial, choro, grito, movimentos corporais (chutar um objeto, socar a almofada ou parede), etc.

Outra forma de expressarmos agressivamente essa frustração é nas formas mencionadas acima, com a retração, recolhimento, fraqueza, omissão. “Ah, ela não vai me responder? Então não vou falar com ela!” – é um clássico exemplo de manifestação da raiva com uma agressividade bem característica. Negar um pedido de ajuda a alguém que se atribuiu a origem da frustração, é também outro típico comportamento agressivo omissivo. Protelar a resolução de algo que precisa ser feito, buscando distrações, é outra forma bem agressiva de manifestação dessa energia.

Saber reconhecer quando estamos frustrados é um passo importante para evoluirmos. Entender que essa manifestação agressiva precisa ter lugar saudável para ocorrer, é o passo seguinte para essa jornada evolutiva.

Winnicott dizia que “se a sociedade está em perigo, a razão não está na agressividade do homem, mas na repressão na agressividade pessoal nos indivíduos”.

Em meu consultório atendo vários pacientes que adoecem por não poder expressar essa energia na forma da agressividade como acima exemplificado, não encontram lugar saudável para expressar o que sentem, e reprimem a agressividade ao ponto de perderem a saúde, a libido, com dores musculares e nos tendões, dor de cabeça nas têmporas, ressecamento ocular, artrite, artrose, etc.

Sim, está tudo bem se recolher em sua concha por um tempo, apenas e tão somente para que compreenda as razões que trouxeram a frustração, o tamanho que deu às suas expectativas e o tombo que levou na distância entre elas e o resultado obtido. Uma pausa para reagrupar os exércitos, curar feridos, contar as armas e munições, e se fortalecer para a continuidade da batalha evolutiva que travamos.

Sim, está tudo bem levar um gelo, a pessoa precisa do tempo dela para se refazer e encontrar espaço para manifestar a agressividade de forma a não adoecer.

Sim, está tudo bem ir para o mato e xingar alto e por para fora o sentimento de impotência diante das demandas que nos impomos de forma injusta ou não.

Sim, está tudo bem dar uma sumida, ficar mais em casa, aquietar a mente e informar aos amigos e queridos que a ausência não é por maldade, mas processual e necessária.

Sim, está tudo bem em ser exatamente quem você é, sem tirar nem por, e aceitar seu processo evolutivo, cada etapa dele, e se agradecer por ter se trazido até onde está, por ter feito as escolhas que conseguiu fazer, e por ser tão compreensivo/a consigo mesmo/a.

Encontre um espaço saudável para manifestar suas emoções e sentimentos, de preferência faça uma psicoterapia com alguém capacitado e da sua confiança.

Seja seu melhor amigo, se preencha de amor até poder transbordar.

Como copos, podemos derramar amor de duas formas, ou transbordando, ou tombando. Não tombe, os seus amados não poderão beber seu amor, você ficará vazio/a e isso pode trincar ou quebrá-lo/a.

Malone

Fontes:

BARRETO, Mariana Araújo. Reflexões sobre os limites na educação e a conquista da moralidade na teoria de D. W. Winnicott. 2019. 39 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2019.

CAMPIGLIA, Helena – Psique e Medicina Tradicional Chinesa, 3a Ed., Ícone Ed., 2018.

DIAS, Elsa Oliveira – Winnicott: Agressividade e Teoria do Amadurecimento, Nat. hum. v.2 n.1 São Paulo jun. 2000, site.

MACIOCIA, Giovanni – Os Fundamentos da Medicina Chinesa, 3a. Ed., Roca, 2018.

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