Infância

Vivemos em uma sociedade que não tem tolerância e paciência com a infância. Que não compreende a dificuldade da criança em lidar com frustração e chama isso de birra. Que não aceita a adaptabilidade nascente e chama isso de criancice. Que rejeita os processos de aquisição de novos conhecimentos e chama isso de imaturidade.

Quem desvia o olhar para a tentativa de encaixe nessa sociedade e dá as costas para o infante, é aceito socialmente, e faz parte de um clube de predispostos à diversas doenças por rejeitar a própria criança interior.

Quem dá às costas a essa sociedade de adultos corrompidos que renegam o ser criança e aceitam crianças adultizadas, é visto como alguém que não sabe educar. Pois educar nesse paradigma é tornar adulto ainda quem não está pronto para ser.

Esse atropelamento doentio reflete vários distúrbios psicossomáticos, relacionais, sistêmicos. Vemos adultos de mais de 40 anos ainda se resolvendo quanto à processos da infância, pois não puderam ser crianças quando jovens, e somente agora precisaram voltar lá atrás para resgatar essa criança abandonada por si mesmo, na tentativa de ser adulto logo, para encaixar nos anseios alheios. “Escreva antes dos 6, fale antes de 1, ande logo, namore logo, se case e tenha filhos, viva rápido, seja o primeiro, entre na faculdade antes dos 18, seja o que não está pronto, depois se apronte”. Esse discurso está presente em várias falas, panfletos, conversas, pensamentos, moda, entretenimento, e esparramado de forma sutil pela teia sistêmica.

Respiro profundamente e reflito, qual o propósito de se negar com tanta veemência que cada etapa tem seu processo, seu tempo, e que cada um tem um tempo diferente do outro para evoluir? Estar em um determinado processo ou etapa e não em outra, é deixar de evoluir?

Olhar mais para a infância com carinho, com acolhimento, se colocando mais próximo, na altura e local de fala de uma criança, sem tratá-la como alguém menos capacitado, sem alterar a voz numa infantilização artificial, mas tratando-a como uma pessoa que está chegando numa festa em que estamos a mais tempo (mas que nenhum de nós sabe de quem é a festa e que festa é essa…), é algo para nos auxiliar nesse processo de resgate de nossa própria criança.

A cura de nossa sociedade passa pela aceitação da criança, que foi largada na estrada lá atrás, quando saímos para a vida querendo ser gente grande.

Nossa grandeza talvez esteja no que achamos ser o pequeno, em deixar que correntes de brinquedo se encadeiem aos poucos, numa compreensão de um processo gradual e lúdico, e não nas correntes de uma vida que chamam de adulta e que mata e ignora nossa criança interior, acorrentando-a nos porões do inconsciente.

Malone

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